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SERES HUMANOS
Ilda Maria Costa Brasil

  Numa noite, aromatizada pelo perfume das flores campestres e das árvores nativas, sozinha, em meu quarto, virava-me de um lado ao outro, na cama, e, por alguns minutos, tive a sensação de que já havia vivenciado uma situação semelhante a que estava a acontecer naquele instante, sem que eu pudesse precisar quando ou onde fora. O meu desejo era transformar-me numa ave e voar para bem longe dali, embora o local fosse puro e natural, não me atraía.
    Entre a solidão e os medos de uma adolescente, eu ouvia vozes, as quais acreditava virem do porão da casa. Isso me deixava angustiada e aflita. Por várias vezes, gritei, entretanto a voz não saiu. A garganta permanecia apertada, as lágrimas rolavam em meu rosto e minhas mãos transpiravam muito.
   Ao ouvir o canto de alguns pássaros, senti-me aliviada. A noite estava acabando e o perfume dos eucaliptos podia ser sentido. Eu desejava ouvir o ruído dos passos de meu pai, assim poderia levantar-me e livrar-me de meus tormentos noturnos. Após a higiene matinal, corri até à mangueira para tomar leite com canela recém-tirado das vacas, momento em que mamãe e vovó preparavam o café.
   No interior, poucas coisas me faziam sorrir. Gostava de colher frutas no alto das árvores, ver as galinhas e as angolas disputarem os grãos de milho no quintal, os porcos rolarem na lama, os patos e os marrecos nadarem no açude e os terneirinhos mamarem esfomeados.

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