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A VOZ DO BAIRRO
Tiago Dariano Slompo

Sempre achei curioso aquele buraco na parede da antiga mercearia. Pequeno, mas fundo o bastante para esconder mistérios. O muro, todo rabiscado, exibia nomes, frases e desenhos que o tempo já havia começado a apagar. Eu, Ravi, na época dezesseis anos, morador desde sempre desse bairro que um dia fora bonito, agora via tudo se degradar e, sem perceber, eu fazia parte disso. A verdade é que tudo começou sem que eu, realmente, desse-me conta. No colégio, ser “durão” parecia a única forma de sobreviver. Quem mostrava sentimentos virava alvo de piadas, então aprendi a esconder o que eu realmente era: um garoto calmo, que ainda gostava de desenhar e conversar com os pais nas tardes de domingo. Aos poucos, fui me moldando para caber naquele grupo. Ri de quem não queria rir, imitei atitudes que não eram minhas e encontrei na pichação uma maneira de ser notado. Era como se cada rabisco dissesse: “eu também existo”. Mas, no fundo, eu sabia que aquilo não era coragem, era solidão disfarçada. A cada muro riscado, a cada palavra jogada sem sentido, era como se eu sujasse um pedaço de mim. Eu não pichava só as paredes do bairro, eu pichava a minha própria história. Carregava uma raiva que eu não entendia direito, um vazio que tentava preencher com toda a rebeldia imaginável. Tudo o que eu mais queria era ser visto, ouvido, aceito do jeito que eu era sem precisar me esconder atrás de tinta ou de uma atitude que nunca me pertenceu. Até que, certa tarde dominical, enquanto riscava mais um nome no muro da velha mercearia, ouvi uma voz rouca vazar de um buraco no local:
— Por que fazes isso comigo, Ravi? Assustei-me. Ninguém estava por perto. — Quem está aí? — perguntei, com os olhos arregalados. — Sou eu. O bairro. Pai das ruas onde você aprendeu a andar de bicicleta, da praça onde costumava jogar bola… E do muro que agora você machuca. Senti um arrepio. Era impossível, mas aquela voz parecia mesmo vir de dentro das paredes, como se as rachaduras respirassem. — Eu só… não sei — murmurei. — Todo mundo faz isso. — Nem por isso é certo — respondeu a voz.  

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